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A vida, através dos filmes, a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.13

Este rio sem regresso já trouxe muitos filmes consigo mas é da vida que trata. A vida é que sobressai em tantos filmes...

Já o disse aqui que no cinema prefiro o que é verosímil, próximo da realidade. A fantasia delirante não me atrai, embora lhe possa reconhecer valor artístico e cinematográfico. É a realidade que me seduz, a vida, a experiência, as emoções, os sentimentos, um percurso, um caminho, as consequências de cada decisão e de cada escolha, os imponderáveis, as surpresas, os encontros e desencontros, as expectativas.

 

Alguns filmes trazem-nos a vida lá dentro, nas personagens sobretudo, na forma como encaram as situações, como se adaptam ou  modificam as suas circunstâncias, por vezes adversas, como enfrentam os desafios. Digamos que há filmes inspiradores. Tal como os livros, só que com vozes lá dentro, os sons e os silêncios, os risos e as lágrimas, e por vezes os lugares, as árvores, as cidades, as atmosferas. É essa a possibilidade do cinema que destaco e registo na alma, a densidade de uma atmosfera. 

Para tudo isto acontecer - e tantas vezes é a sorte de felizes encontros -, entra um grupo de pessoas, o guionista, o realizador, o produtor, o director de fotografia, os actores, o compositor, e sabe-se lá mais que influências, que conversas, que trocas de ideias, cada um a colocar um pouco de si próprio no trabalho final. 

Mas é ainda ao realizador e ao seu olhar único sobre uma ideia, um guião, que podemos atribuir a atmosfera única de cada filme, é esta a minha convicção. O seu olhar prevalece, mesmo que trabalhe em equipa como parece ser a tendência actual. Já lá vão os tempos de realizadores autocráticos como o Hitchcock ou maníacos como Orson Welles. E tantos outros génios do Cinema.

 

Já aqui fiz um dia um apanhado das décadas de Cinema a navegar neste rio. Hoje deixo aqui uma actualização, não apenas por décadas de Cinema mas também pelos realizadores mais representados:

 

A 1ª década de 2000 continua a mais representada com 37 filmes. Além dos referidos na altura, gostaria de destacar que, destes apresentados mais recentemente, o tema central é a violência. A sua natureza original na própria família e cultura de grupo, no incómodo e angustiante O laço Branco. A violência silenciada e aceite na reviravolta política da África do Sul em Disgrace. Uma outra forma de violência, a indiferença, mais grupal e das organizações do que a individual, em Babel. Indiferença, distância emocional e frieza nas empresas actuais e na forma como se descartam de recursos humanos em Nas Nuvens. A violência da guerra, neste caso a do Iraque, mas pode aplicar-se a todas as guerras, em Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone). A violência e o caos generalizado numa projecção num futuro não muito distante em Children of Men.

Para nos consolar de tanta violência, só mesmo o humor de Woody Allen em A Maldição do Escorpião Jade, Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works).

De destacar ainda a mudança de perspectiva de um homem de meia idade: um, sobre o balanço da sua vida em As Confissões de Schmidt, o outro, o desafio que é lidar com a genica de um grupo de senhoras idosas, em Pranzo di Ferragosto.

 

A década seguinte mais representada é a dos anos 50 com 29 filmes. Além dos já aqui referidos, estes são todos magníficos: mais um William Wyler, Desperate Hours, mais um Anthony Mann, The Tin Star, mais um Douglas Sirk, Written in the Wind, um Billy Wilder, Sunset Boulevard, e um Robert Wise, Executive Suite.

 

A seguir, com 21 filmes, a década de 90, com mais este Jerry McGuire, e com 17 filmes, a década de 80, com mais estes Finnegan e O Turista Acidental.

 

A década de 40 não está mal representada apesar de tudo. São 13 filmes no total, acrescentados mais um Hitchcock, Rebecca, e um King Vidor, The Fontainhead.

 

As décadas menos representadas mantêm-se a de 60, com 9 filmes, a de 70 com 7, e a de 30 com 5, já apresentados na altura.

 

Quanto a realizadores, os mais representados e referidos são: John Huston com 6 filmes e referências a filmes, Steven Spielberg com 5, Frank Capra e Woody Allen com 4, William Wyler e Alfred Hitchcock com 3, John Ford, Joseph Mankiewicz, Elia KazanDouglas Sirk, Anthony Mann, Ingmar Bergman e Robert Wise com 2.

 

Estes são os grandes, entre outros, realizadores, numa época em que a realização era uma arte original, a desbravar caminhos, a experimentar planos e sombras, a adaptar a narrativa à linguagem própria do cinema, e a  escavar mais fundo na alma humana, no seu lado luminoso e no seu lado mais negro.

Hoje o Cinema tem outros desafios, pode escolher a maior simplicidade e naturalidade ou a maior complexidade e artificialidade, pode jogar, simular, cortar e colar, num ritmo muito mais veloz e adaptado ao tempo actual, sincopado e ansioso, por vezes ansiógeno.

 

Mas estes realizadores, entre outros, são muito mais do que pioneiros numa arte e numa linguagem única, imagem, movimento e som. Criaram uma atmosfera única, um olhar completamente novo, a frescura de todos os inícios e descobertas.

 

Para animar os Navegantes deste rio, e como síntese de homenagem a todos os realizadores que aqui navegam também, aqui fica uma cena de Manhattan com um dos pares que melhor funcionaram nos diálogos da comédia woodiana. Manhattan, como já repararam, é um dos meus filmes preferidos. Uma boa navegação... e não se deixem desviar por nevoeiros...

 

 

 

 

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publicado às 23:16

A América poética dos "misfits" e das naves espaciais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.07.10

 

Terminei um post recente a dizer que a linguagem do cinema consegue revelar mais do que a linguagem escrita. Como é que entenderíamos, por exemplo, o que o Pedro aqui nos diz dos inadapatados de uma forma tão poética, se não tivéssemos visto o filme?

Já coloquei a navegar neste rio os misfits da América, da América actual, onde não há espaço para encontrar um papel definido e viver uma história tranquila. O protagonista desse vale é um cowboy fora da época e da sua lógica intrínseca, já não tem território. Aliás, já não há lugar para essa liberdade de escapar à voracidade dos subúrbios, das habitações, dos carros, dos ruídos, do consumo, nem escapar à lógica do dinheiro, da droga e do sexo, numa alienação decadente.

N’ Os Inadaptados de John Huston há ainda uma ténue esperança, mesmo que aliada ao desencanto e à tristeza. Mas ainda não é a violência do vazio existencial desse vale invadido pelas pessoas. N’ Os Inadaptados podem estar a despedir-se, magnífica visão poética do Pedro, mas ainda é de liberdade e de espaço livre que estamos a falar. Os cavalos selvagens, símbolo maior dessa liberdade, são soltos das cordas que os prendem. A cena em que a rapariga começa a gritar, naquele terreno deserto e muito branco, onde Huston gosta de ver as suas personagens, é mesmo arrepiante. É talvez a cena mais forte do filme. N’ Os Inadaptados, como disse, há gritos, olhares tristes, pressente-se a solidão, mas ainda há espaço para esse grito e esse olhar.

Hoje, nesse vale, é o vazio, plana-se, sem consistência física, numa realidade que não se aceita e onde não se cabe. Por isso o protagonista fica fascinado com o cenário da equipa de filmagens: eu até me adaptava a este trabalho… sempre é mais fácil ser personagem do que viver um papel na vida real.

 

É certo que, olhando para trás, Marilyn sempre me pareceu uma personagem de filme. E se fosse mesmo honesta comigo própria, admitiria também sentir por vezes vontade de escapar à vida real e refugiar-me nos cenários poéticos dos filmes dos anos 60. Poderia ser até num filme de ficção científica, n’ O Dia em Que a Terra Parou, mas no original de 1951, não no remake. Contracenar com a Patricia Neal e com o actor inglês, Michael Rennie, que entra tão bem na pele de visitante extra-terrestre… O que eu gosto deste filme, vá-se lá saber porquê!

Aqui se prova que a tecnologia não é suficiente para conseguir uma atmosfera e construir uma obra de arte. A tecnologia - e mesmo a verosimilhança dos acontecimentos, e não me estou a referir à visita extra-terrestre -, não chega para criar um filme com esta frescura do olhar, esta atmosfera, e isso ficou bem visível no remake.

Já repararam aqui no cenário nocturno? As sombras, os espaços, o silêncio, a tranquilidade? E também só possível numa visão de futuro muito optimista, não acham? Onde é que hoje encontramos, numa cidade, esse silêncio e essas noites misteriosas e tranquilas, tão poéticas? E onde é que hoje deixariam o robô em paz, sem tentar invadir os seus segredos e testar os seus poderes? Sem invadir, logo no início, a nave estacionada no jardim público? Impossível…

De onde se conclui facilmente que os nossos são tempos bárbaros em comparação com os anos 50 (que, ainda por cima, é a década do cinema preferida do Pedro). Que só progredimos em tecnologia, mas não em poesia, em humanidade, em respeito pelo espaço de cada um. Pensando bem, não somos hoje muito diferentes de uma qualquer tribo bélica do período medieval. Querem ver? Os militares colocariam um perímetro de segurança muito maior do que aquele que vemos no filme, os jornalistas plantar-se-iam em volta da nave como moscas, com os seus microfones ligados todo o dia e toda a noite, debitando banalidades para as respectivas televisões, e ouvir-se-ia o barulho ensurdecedor de helicópteros como vespões assassinos a rondar o lugar. Além disso, a protagonista seria uma cínica oportunista que não conseguiria perceber a mensagem do extra-terrestre, entregando-o aos militares, e o filho, um miúdo caprichoso e egocêntrico, incapaz de qualquer empatia. Bem, se tentarmos seguir mesmo o que é plausível, esse encontro com o extra-terrestre nunca se poderia efectuar assim sem consequências imprevisíveis e fatais: contágio mútuo de um qualquer vírus fatal, por exemplo.

Neste cenário poético (sim, Robert Wise antecipa, a meu ver, a atmosfera poética dos anos 60), é ainda possível respirar sossegadamente durante uns tempos, ainda que breves. E contracenar com personagens que sentem, estão vivas, acordadas. Ainda conheci essa atmosfera, e é dessa atmosfera poética que mais sinto falta. Restam-me os filmes… já não é mau. E, afinal, mais vale esta fuga, estes intervalos, do que a que nos propõem hoje: consumo de entretenimentos vazios e sem alma, conversas estéreis e de circunstância, ruídos vários de gente ansiosa e hiperactiva, correrias sem objectivo definido, fogos-fátuos em cenários plastificados.

 

 

 

Patricia Neal: parece que este único Patricia Neal aqui a navegar, antecipou em pouco mais de um mês a sua despedida. Mas este será, para mim, o seu papel de sempre. Desde que o vi pela primeira vez que ofuscou o seu Vontade Indómita (papel brilhante e tão sensual) e o seu Breakfast at Tiffany's (elegante e cínica). É que aqui, nesse Dia em que a Terra realmente parou, Patricia é essa mulher calma e segura do Bem e do Mal, do certo e do errado, como se saber distingui-los fosse a coisa mais natural deste mundo, mas não é! São cada vez mais raras as pessoas que se movem neste mundo e se relacionam assim, neste mundo, com os outros seus semelhantes, com esta simplicidade e honestidade. Cada vez mais raras. Talvez por isso esta personagem feminina me tenha fascinado tanto. Tem a lucidez e a sensibilidade suficientemente afinadas para ver realmente que o namorado tinha as prioridades trocadas. Tratou-se de escolher o lado certo, o do homem que se tinha colocado numa posição vulnerável para avisar os terrestres. São estes papéis que agora mais me fascinam: pessoas simples, que agem de forma discreta, correcta e responsável, diríamos normalíssimas, mas que afinal, são mais do que extraordinárias. E, como disse, cada vez mais raras.

(Esta é uma simples homenagem de um rio... a 9 de Agosto)

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:34

O valor intrínseco de cada indivíduo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.10.08

 

Um grupo de vadios, inadaptados ou excluídos (como agora estranhamente se diz), uma zona de fábricas de conserva abandonadas, uma casa de meninas onde diversos espécimens vão dar à costa, um rebelde estudioso de biologia marinha em regime independente, que anda a preparar um livro que nunca termina... John Huston como Narrador... e tudo filmado em estúdio... Mais um produto mágico, uma síntese feliz... Cannery Row...

John Huston, que sempre compreendeu os inadaptados, aqui a enlevar-se com o texto magnífico de John Steinbeck.

 

Se observarmos este grupo de vadios vemos que revela qualidades que dificilmente encontramos nos socialmente adaptados. Não acreditam? Afecto genuíno, lealdade, amizade, protecção do mais frágil, coesão de grupo. Ainda que os seus métodos sejam... enfim, muito discutíveis.

Revelam, além disso, uma surpreendente capacidade de organização: passam a vida a angariar uns tostões em preparação de festas e nem precisam de grandes razões para festejar. O resultados dessas festas é invariavelmente uma bebedeira monumental e a destruição da casa-laboratório do Doc...

Este grupo de vadios, além destas qualidades tão mal encaminhadas, pratica ginástica matinal (muito aldrabada) e ainda programa de vez em quando uns jogos de baseball com as meninas da Casa.

Ah, e faltam aqui duas personagens importantíssimas para completar a história: o Visionário e a Rapariga. É até com eles que a história começa: a Rapariga, de mala na mão, chapelinho na cabeça e longo casaco (anos 40), surge naquele lugar improvável e vê, numa rocha à beira-mar, um saco de papel. Aproxima-se. Pela sofreguidão com que pega num pão vemos que vem esfomeada. O Visionário aborda-a. A Rapariga atrapalha-se e volta a colocar o pão no saco, constrangida. O Visionário então diz-lhe esta coisa extraordinária, que Deus cuida dele, e que coma à vontade.

Só mais tarde a Rapariga, que é muito observadora, verá que Deus é o Doc que, subrepticiamente, coloca lá os sacos para o Visionário.

Entretanto, a Rapariga, que não encontra trabalho por ali em lado nenhum, nem mesmo no único café, acabará por ir parar à Casa das Meninas. Inicialmente relutante. Não parece talhada para aquele papel. A Madame, consciente disso, desafiará o Doc a encaminhá-la para outra solução.

 

Cenas fenomenais:

- A preparação do Doc antes de ir jantar com a Rapariga, em que terá de voltar a casa vestir-se a rigor para não contrastar com ela;

- Toda a cena do jantar a dois, descrita e acompanhada pela voz encantatória de John Huston;

- A dança acrobática (loucos anos 40) do Doc e da Rapariga, esta vestida de Pastorinha (para estimular as fantasias dos visitantes);

- A preparação da festa para o Doc, pelo nosso grupo, que inclui uma verdadeira "caça às rãs" para vender e angariar os preciosos tostões;

- O jogo de baseball, vadios e meninas, em que o Visionário revela todo o seu talento para o desporto;

- Os dilemas éticos de Hazel, o vadio mais ingénuo, o mais generoso também, e o mais protegido pelo grupo; e a sua terrível decisão-limite, para ajudar um amigo em sofrimento...

 

Para chegar à ideia que dá razão de ser ao título, "o valor intrínseco de cada indivíduo", ainda preciso de pedalar mais um pouco. Agradeço desde já a paciência dos viajantes que toleram as minhas interrupções... Às vezes inicio caminhos a pique para os quais não tenho o fôlego necessário... pelo menos para os trepar de uma só vez...

 

Estes Vadios não incomodam ninguém. E como diz a Madame à Rapariga, não gostam de falar do passado. Se tentarmos ser objectivos, veremos que há incluídos e adaptados a fazer mais estragos sociais do que estes Rapazes (the boys). John Steinbeck (e também John Huston) olham a vadiagem sem qualquer interferência moralista, apenas como um facto, uma realidade.

Quando conseguirmos olhar cada indivíduo pelo seu valor intrínseco, pela sua própria existência, esta distinção incluídos-excluídos nem se coloca. Todos serão incluídos, pelo simples facto de existirem. Mas o facto de existirem não obriga ninguém a seguir os passos miméticos de uma sociedade que até se pode considerar, no mínimo, doente e decadente. Porque numa sociedade saudável, ou que disso procura aproximar-se, cada indivíduo será respeitado por si mesmo. E ao ser respeitado por si mesmo, mais facilmente encontrará o seu lugar e o seu percurso natural. Não haverá lugar para moralismos, paternalismos, imposições, porque já não farão sentido.

 

Mas há em Cannery Row outro ângulo interessante: o valor responsabilidade. O Doc sente-se responsável pelo Visionário. Ninguém precisa de lho lembrar. Assume essa responsabilidade como um valor próprio da sua natureza. E também em relação à Rapariga, o Doc descobre a seu tempo, que ela é muito mais importante na sua vida do que teria desejado no início. É ultrapassado pelos acontecimentos. Quando ganha coragem para lho confessar, vê-a distante, implacável. E  percebe dolorosamente que a perdeu. E que há erros na vida que simplesmente não conseguimos consertar.

A conversa na Caldeira (a nova habitação da Rapariga, que agora já trabalha no café), é verdadeiramente comovente. Claro que só mesmo a intervenção de alguém como Hazel poderá compor este desencontro. Só alguém com uma infinita ingenuidade poderá descobrir a solução-limite para o sofrimento do Doc. A Rapariga tinha-lhe dito que lhe levaria uma sopa se estivesse doente ou com um braço partido. O destino do Doc fica inscrito nestas palavras casuais da Rapariga.

Mas voltando ao valor "responsabilidade pelo amigo": o Doc mal sabe tomar conta de si próprio! É um cientista autodidacta e rebelde, que vive sozinho numa casa-laboratório rodeado de espécimens marinhos. E no entanto... cuidará do amigo até ao fim. É mais do que poderemos encontrar na sociedade socialmente organizada, não acham?

Mas trata-se de John Steinbeck! O autor d' As Vinhas da Ira que John Ford traduziu para a linguagem do Cinema naquele impossível preto e branco, naquela atmosfera única! E o autor, igualmente, de um dos livros mais perturbadores que eu já li: A um Deus Desconhecido. Alguém me sabe dizer se já houve alguém a tentar traduzi-lo para linguagem do Cinema? Dava um filme mágico!

 

 

 

Obs.: É deste filme uma das minhas lines preferidas. Depois da dança acrobática, a Rapariga que é uma fanática de baseball, fala dessa época de glória do Doc quando era uma estrela do baseball, não entendendo porque largou tudo assim, repentinamente, e deixa cair no meio da conversa o nome Louis Delano. O Doc senta-se no sofá e diz incrédulo e escandalizado: Eih! Louis Delano!? Quem tu foste logo escolher para ser o teu herói!? É uma das lines que utilizo frequentemente sempre que vejo alguém ser colocado num qualquer pedestal sem qualquer mérito próprio.

 

 

 

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publicado às 17:34

A arte apanha-nos sempre desprevenidos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.08.08

 

Como contei no último post, vi The Red Badge of Courage pela primeira vez, dia 5, no canal TCM. Pensamos (erradamente) que depois da idade impressionável poucas coisas nos vêm surpreender. Puro engano. A arte - e a arte em Cinema - apanha-nos sempre desprevenidos.

 

The Red Badge of Courage mostra-nos a guerra (neste caso a Guerra Civil Americana) através do olhar de um jovem soldado. O terrível processo de encolher a alma inquieta e febril de um rapaz e levá-lo à maior angústia, a do medo. E à fuga, em plena batalha.

Claro que ninguém no meio da confusão, dos estrondos e do fumo, deu por isso!? Muitos terão tentado o mesmo, como lhe dirá o amigo mais próximo. Mas até ter descoberto isso, e que tinha sido dado como morto na altura, o rapaz terá de sofrer a vergonha dessa reacção instintiva (e humana) de salvar a pele.

E é quando vê passar os soldados feridos, pelo caminho poeirento, que desejará, ele também, ter uma marca qualquer no corpo, uma marca que sirva de prova de coragem.  Ainda terá a sua marca, não de uma bala ou estilhaço, mas de uma forte pancada na cabeça. De qualquer modo é uma marca, que irá mostrar, envergonhado, ao seu amigo, como fazem os rapazinhos com as mazelas visíveis das suas aventuras. E na batalha seguinte, como qualquer adolescente que desafia a morte, avançará intrépido no terreno, a disparar, e pegará na bandeira caída em pleno campo.

 

Só alguém com uma inteligência e sensibilidade filosófica fora do comum, eu diria mesmo, fora deste mundo, conseguiria, como John Huston aqui consegue:

- mostrar-nos todo o horror da guerra, a sua estupidez e insanidade, a sua lógica contra o indivíduo e contra tudo o que está vivo. O encontro final, já no final da batalha, entre os soldados do Norte e do Sul, é insuportavelmente comovente. A guerra não é sua. É uma lógica que os transcende;

- mostrar o contraste brutal vida-morte, ordem - caos, claridade - escuridão, num pequeno pormenor: o som de um simples pássaro e o sol através da folhagem;

- traduzir para linguagem do cinema - planos, movimento, sequências -, o percurso dos soldados, as suas dúvidas e angústias. E as cenas de batalha... A fotografia aqui é de tirar o fôlego. E o ritmo é perfeito. Assim como a banda sonora, magnífica.

 

A preto e branco fica tudo mais intenso, porque é a linguagem mais próxima dos sonhos (e dos pesadelos). Retive num recanto do meu cérebro esta imagem e esta frase: no regresso da batalha, que eles julgavam a última, um rebelde apoia um ianque ferido. Alguém disse: It was all a mistake.

 

 

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publicado às 16:33

John Huston e um dia de sol

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.08.08

Ontem foi O Dia John Huston no canal TCM. Soube-o por acaso, quando por lá passei à espera de um "milagre". E às vezes, sim, às vezes, o "milagre" acontece: apanhei, quase no início, The Treasure of the Sierra Madre. No final, uma entrevista com a filha, Angelica Huston e o anúncio do filme seguinte (que nunca tinha visto): The Red Badge of Courage.

John Huston, como fui espreitar a uma breve biografia, nasceu a 5 de Agosto de 1906, no Nevada. E para celebrar aqui, com um dia de atraso, o seu cinema-arte - como disse, tão poeticamente, Angelica Huston: a bitter sweet morality about it, lembrei-me de um texto que lhe dediquei, e às suas personagens, e que anda a navegar desde 97... Dei-lhe o título poético John Huston e um dia de sol. Aí vai, devidamente adaptado à navegação deste rio:

 

Primeiro, o cenário. Muita luz, branca. De sol ao meio dia. De um país da América central ou de África. As sierras ou as plantações. Não esquecer as personagens. O protagonista d' As Raízes do Céu aproxima-se de papel na mão. Dizem que o seu criador lhe deu essa capacidade rara nas pessoas, a determinação. Mas há quem diga que foi a imaginação que o salvou durante a guerra, preso num espaço exíguo. Conseguia transportar-se para essas planícies intermináveis onde manadas de elefantes se deslocam em liberdade. O determinado e imaginativo cruza-se agora com uma criatura louríssima como o sol africano e os movimentos, uma coreografia estonteante. Lamentou profundamente que não estivessem no mesmo filme. A vida é injusta, pensou. Não estamos no mesmo filme mas ainda me vai assinar a petição. Assinou, depois a mesma coreografia de bailarina. Descobriu mais tarde, e devido à sua capacidade imaginativa, tratar-se de uma das personagens d' Os Inadaptados. Não tinha nada o ar de inadaptada mas as aparências iludem mesmo os mais perspicazes.

A mania de nos obrigar a trepar esta montanha com este calor. Outro protagonista ao sol do meio dia. Nem uma bebida fresca. Que falha na organização! Eh, viste passar o das petições? Encontramo-nos a toda a hora desde que me meteram naquela aventura horrorosa em África. Pelo menos o calor aqui é seco. Andar a trepar montanhas ou a puxar por um barco a cair aos bocados num rio africano, eis o preço da amizade. Ele gosta de nos ver transpirar. O calor não o afecta, antes pelo contrário. Parece um lagarto, os olhos de lagarto, o sangue frio. Gargalhadas.

Foi o que eu vi naquela noite, no México, que as iguanas se parecem com ele. Gargalhadas. E bebe mais do que eu, pelo menos aguenta-se melhor. Deve ser do sangue frio. O homem deve ser é uma espécie de mágico, um hipnotizador, porque eu não acredito que só pela amizade me apanhava nesta sierra. Aponta para o vale. Pelo menos o cônsul tem a sorte de passar o filme no bar, naquela esplanada à sombra.

Sim, sim, mas farta-se de sofrer e isso é o pior, vermo-nos encurralados na pele de um sofredor. Pelo menos eu tenho momentos divertidos e mesmo alguns em que se sente o verdadeiro calor humano. É preciso ter estrutura de sofredor para suportar o que ele suporta. Ou gostar de sofrer.

Meus amigos, porque é que a verdade é tão cruel? Ambos se voltaram para a olhar.

O protagonista de aventuras em África suspira. É a nossa amiga que nunca se queixa da vida, continua a descer aquele rio com o ar mais natural deste mundo.

A amiga sorriu, depois dirigiu a voz solene para o noctívago em noites mexicanas. E o teu anjo protector?

Não sou o único cruel nestes cenários, mas os piores por vezes são os melhores, cada um no seu papel, o meu anjo esfuma-se sempre, sempre quando amanhece... mas tenho o mar e uma companhia, é mais do que suficiente para um elemento da espécie humana.

Não sejas tão sarcástico, pode ser suficiente para a espécie humana como dizes, mas não é para uma personagem. Voltaram-se, era o homem das petições e dos elefantes. E a minha causa é esta, as nossas causas são sempre maiores do que nós, os nossos sonhos maiores do que nós...

Elefantes, que grande causa... O tom sarcástico pertencia ao protagonista, os olhos semicerrados.

O homem das grandes causas fixou-o. Está tudo interligado, o próprio cônsul entendeu perfeitamente, a mulher louríssima entendeu. Os elefantes são a última réstea de liberdade e dignidade da espécie humana. Não vou perder mais tempo a explicar tudo isso, passo a vida a fazê-lo. Assinem aqui e pronto.

 

 

 

 

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publicado às 13:04

Deborah Kerr e Burt Lancaster

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.10.07

O par mais poético… Não me estou só a referir ao filme From Here to Eternity e ao beijo na praia, mas também a um outro filme, obscuro e esquecido, dos finais de 60, The Gypsy Moths. Há uma sequência poética, um passeio nocturno pelos jardins perto de casa, lado a lado, primeiro em silêncio, depois a verdade, as feridas, o desencanto, são ditos assim, naquele parque infantil, à noite, por aquela mulher que de certo modo desistira de ser feliz. O homem ouve-a calmamente (há alguma coisa mais poética do que um homem ouvir uma mulher?). E desafia-a, mesmo que o seu olhar seja o mais triste olhar, porque quer acreditar que é sempre possível…

Talvez a magia dessa sequência inesquecível, única, também tenha a ver com a banda sonora… com a época… com a maturidade daquele par… Encontro em que o desejo existe de forma difusa, contida, mas que preenche tudo, os silêncios, os dramas, as palavras que se soltam na noite…

No entanto, o desejo de From Here to Eternity é o que mais prende as pessoas, porque é magnífico em si mesmo! Tão absoluto, tão sensual… e tão marítimo, pelo menos, a saber a maresia…

Deborah Kerr, eu diria, a maturidade. O olhar inteligente, sensato, sábio, até na pele da personagem mais inquietante, em The Night of the Iguana de John Huston. As personagens de Tennessee Williams…

Deborah Kerr pega na sombrinha e no caderno de desenho e desce o caminho entre as árvores… Para trás salva o herói perdido que pensa viver no “plano fantástico”… E a mulher solitária com quem o herói “preparou o ninho”, sem o saber… Pensamos que Deborah Kerr vive igualmente no “plano fantástico”, mas será? Não será ela a única que vive verdadeiramente no “plano realista”?

 

 

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publicado às 13:08

High Sierra

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.09.07

Quando o nosso herói é perseguido, no final, já viveu decepções, traições, e assistiu à mediocridade e à estupidez humanas, a sua terrível vulgaridade.

A rapariga que ajudara a libertar-se de uma limitação física, revelou uma limitação de alma, e essa não é operável. Rejeitou-o por um imbecil oportunista. Os parceiros do grupo do assalto degladiam-se por motivos básicos, primários. O ilusório sentimento de posse que dominou os seus ancestrais.

Mas ainda foi a tempo de descobrir o amor dedicado, desesperado, canino, e não só do cão, o “que dá azar”, mas da mulher que o acompanha até ao fim.

A montanha rochosa, imponente, magnífica, indiferente à perseguição e, no entanto, metáfora da liberdade, de valores como a rebeldia do indivíduo numa sociedade que se torna sufocante. A subida à montanha, o último refúgio. A liberdade possível.

“He’s free… free…” Ida Lupino a chorar e a sorrir… “free…”

 

 

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publicado às 17:37


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